Quando nasci ninguém na minha família era crente em nosso Senhor Jesus Cristo. Ao contrário, meus pais tinham cada um sua religião. Meu pai era pai de santo de terreiro de candomblé e minha mãe era católica, apostólica romana (devota de Santa Luzia). Eu sou o filho caçula de seis.

Quando eu tinha a idade de seis anos, o meu pai foi embora de casa para nunca mais voltar e minha mãe ficou sozinha para criar os seis filhos.

Quando os batistas brasileiros realizaram a 1ª Campanha Nacional de Evangelização Cristo, a Única Esperança (1965), no dia 02 de maio de 1965 fui levado a uma série de conferências na Primeira Igreja Batista em São Caetano (Salvador) e naquele dia, aos 12 anos de idade, conheci a Cristo como Salvador de minha alma e Senhor de minha vida.

Ganhei da igreja uma Bíblia e como diriam alguns, “comi o livro”! Nesse processo de nutrição espiritual tive a clara percepção de que Deus era transcendente, porém, também imanente e essa imanência naquele momento e circunstância em forma de paternidade. A presença paterna de Deus me era apresentada muito real através de orientações, direcionamentos, cuidados diversos e múltiplos, correções e uma proposta de me receber como filho (ainda que adotivo), mas com todos os direitos de filho para o resto de minha vida. A vida dos meus irmãos e a minha, por razões óbvias, tinha tudo para dar errado, foi aí que na Bíblia tive a percepção de outra face de Deus: eu podia me relacionar com Deus como meu ABBA, PAI! ABBA é essa palavra que seria como o balbuciar de uma criança que ainda não aprendeu a falar direito. E então, logo finquei convicção de que o pai que não tive, encontrei na pessoa de Deus com sobras e a isso me agarrei.

Alguns intérpretes e tradutores vão sugerir que ABBA é a expressão de nossa infância: papai ou paizinho. Porém, ABBA é mais do que isso: é o balbuciar de uma criança que ainda não tem consciência; é a consciência de uma criança que ainda não sabe quem é; daquela criança que não sabe quem é aquele rosto diante dela; daquela criança que ainda não articula raciocínio; daquela criança que ainda não tem compreensão; daquela criança que ainda não tem crenças, mas sabe que tem diante de si alguém que se oferece como Pai. Tudo o que a criança possui é o senso de que aquele rosto que está diante dela é um rosto que lhe transmite amor, segurança, e que aqueles braços estendidos são um colo desejável de abrigo, numa relação quase que natural. Diante de tantos braços estendidos e diante de tantas faces, uma criança que não tem nenhuma compreensão racional de realidade do mundo, consegue identificar a face de seu pai, a face de seu ABBA.

Deus é o nosso PAI! Deus é aquele nos braços de quem nos lançamos, independentemente daquilo que entendemos, daquilo que cremos, daquilo que sabemos e que invocamos.

Deus é o nosso PAI! Aquele que invocamos com um simples suspiro ou com o balbuciar desarticulado da nossa mais profunda e legítima pureza e ingenuidade. Assim é Deus, o nosso imanente PAI celestial!

Por: Ednaldo Batista Rocha

Pastor da Igreja Batista Vila Nova em Londrina/Pr