Um dos maiores questionamentos que tenho ouvido nos últimos tempos é: “O que está acontecendo com as famílias de hoje?”. Confesso que por muito tempo tentei encontrar respostas para esta pergunta. Há sim, uma série de questões relevantes que muitos estão desprezando e por isso pensam que família feliz, nos dias de hoje, é impossível encontrar.

Casei-me muito nova, apenas 19 anos, e vivi todas as dificuldades que a imaturidade causa em um relacionamento. Mas tinha dentro de mim a convicção de que lutaria para que ele fosse para sempre e se fosse para sempre, teria que ser bom. Com o passar dos anos, ob- servando o crescimento da minha família e ouvindo muitos pacientes e irmãos no consultório, entendi que não seria possível ter uma família feliz sem ter Deus no centro e sem investir nela. Meu marido é pastor de igreja e coordenador de uma Agência Missionária, diante disso, pode-se imaginar a quantidade de trabalho que desenvolve. Durante anos, lutei contra seu ímpeto de trabalhar muito e não ter tempo para a família. E quando digo que lutei, é porque lutei mesmo. Lutei muito. Orei muito. Algumas vezes até com lágrimas lhe disse que precisava dedicar mais tempo a nós. Valeu a pena! Com o passar do tempo, percebi meu marido priorizando seu dia de folga, descansando nas férias, levando os filhos para passear na praça, mesmo em um dia de semana. Entendemos juntos, que se não inves- tíssemos em nosso casamento e em nossos filhos, a vida em família perderia o sentido.

Aos pais, digo sem medo de errar, gastem tempo com seus filhos. Separem tempo para isso. Nossa vida é muito agitada, somos engolidos pelos afazeres do dia a dia e não priorizamos o tempo juntos. Para aplacar a culpa do fracasso, compensamos nossos filhos e cônjuge com presentes, promessas e às vezes lágrimas de arrependimento. Mas nos dia seguinte, fazemos tudo do mesmo jeito. A culpa nunca é sanada. E vivemos um ciclo vicioso. Diante disso, queridos pais, aproximem-se dos seus filhos. Conheçam o mundo que vivem. É importante conhecer seus amigos, seus interesses, seus sonhos, pois só assim, conhecerão seus corações.

Tenho visto pais distantes de seus filhos, chegam até a dizer que não os conhecem mais e não sabem quando isso começou. Começou quando eles chegaram em casa agitados para contar uma novidade, aparentemente sem importância, mas os pais estavam muito ocupados, es- tressados ou até não estavam em casa. Eles buscaram outra pessoa para contar a novidade e os pais não perceberam. Até quando os pais perceberão seus filhos quietos ou diferentes do comum, mas não farão nada? Não os procuram para conversar, não se interessam por seus problemas. Uma muralha emocional começa a se levan- tar entre pais e filhos. Não podemos desistir dos nossos filhos, talvez eles estejam vivendo um mundo que desconhecemos, falando palavras que não entendemos, mas dentro deles, ainda existem aquelas crianças imaturas e inseguras que um dia pegamos em nossos braços. Eles precisam de nós. Minha palavra também é para aqueles que hoje vivem essa muralha emocional no casamento e não sabem como derrubá-la. Em primeiro lugar, não há obstáculo grande demais que não possa ser derrubado com o Senhor. Creia nisso. Então, com essa certeza em seu coração você precisa lutar.

Algumas dicas práticas podem ajudar. Aprendi algo valioso observando a vida conjugal dos meus pais. Eles sempre reservaram tempo para estarem a sós. Quando era criança não entendia isso, às vezes até reclamava e pedia para ir junto com eles, mas hoje, depois de anos de ca- samento, entendo com clareza essa necessidade. Casais, separem tempo para estarem juntos, sem os filhos. Passeios de mãos dadas, cinema juntos, um jantar ou até uma viagem. Não há problema em deixar os filhos para estarem juntos, cuidando e investindo no relacionamento.

Alguns casamentos passam por esfriamentos severos e os cônjuges chegam até a pensar que não se amam mais. São brechas perigosas que abrimos em nossos relacionamentos e muitas vezes o retorno é dolorosos e deixa marcas. Esfriamentos são causados pela falta de tempo juntos, pelas diferenças nas metas e sonhos do casal, pelo afastamento de Deus. Isso precisa de atenção. Outras orientações são importantes e percebo que tem trazido conflitos nos relacionamentos. Maridos, não deixem suas esposas dormirem sozinhas, não fiquem acordados até tarde enquanto suas esposas dormem. Vocês precisam deitar juntos, orar antes de dormir, terem momentos a dois. Mulheres, não priorizem os afazeres da casa ou até mesmo da igreja, em detrimento do seus maridos. Eles preferem uma casa bagunçada com a esposa ao lado do que uma limpeza invejável, mas uma esposa distante e cansada.

Outra questão importante é o tempo que as famílias dedicam as redes sociais, jogos eletrônicos e televisão. Um tempo precioso, às vezes o pouco que resta para estarem juntos, sendo perdido como penas ao vento. Se não há tempo sobrando, não desperdice o pouco que tem. Não pense que seu relacionamento familiar irá melhorar se você não mudar seus hábitos. Por isso, maridos e esposas, invis- tam em seus casamentos. Acreditem, ele pode ser pleno. Pode ser diferente. Percebi que quando o casamento vai bem, os filhos também vão bem, porque se sentem segu- ros e o contrário também acontece. Quando os pais brigam ou estão distantes um do outro, os filhos sofrem, ficam inseguros e se afastam para fugir dessa difícil realidade. Gosto que meus filhos vejam o quanto nos amamos. Abraços, carinhos entre os cônjuges, fazem bem aos filhos. Mas existe também a necessidade de dedicar tempo aos filhos. Passeios juntos, programas diferentes, mesmo estando em casa, culto doméstico, férias em família. Todas essas oportunidades aproximam os pais dos filhos.

Todas as noites meu filho mais velho chama seu pai para orar antes de dormir. Começou em uma noite em que estava com medo de dormir sozinho e se tornou um hábito irrevogável. Ali conversam sobre o dia, algumas exortações necessárias são dadas e até risadas altas às vezes ouço do meu quarto. Não há fórmula mágica para uma família feliz. Há sim, esforço, dedicação e busca ao Senhor. Por isso, não importa como sua família esteja hoje, importa o que você fará para mudar essa realidade. Não se acomode ao estágio que chegou. Você sempre pode progredir, há sempre o que melhorar, por isso, mãos a obra! Afinal, nessa batalha, não lutamos sozinhos, o Senhor dos exércitos luta ao nosso lado. Que Ele te abençoe em nome de Jesus.

LETÍCIA AZEVEDO SILVEIRA
Psicóloga