O tema em tela é em tudo momentoso e nada perturba a força de sua singularidade, pois trata-se de um assunto que haure toda sua razão de ser. Vale salientar que não intencionamos com esta reflexão, exaltar um modelo e aviltar outro, o que objetivamos é expor a práxis de cada um deles, assim obtendo um extrato para nossa avaliação.

Pois bem, iniciaremos com o entendimento de como funciona a Igreja Baseada em programas. Esta é uma organização que se reúne periodicamente num prédio e se vale de suas programações para manter seus frequentadores. Neste sistema é muito comum que um grande número de pessoas fiquem na “arquibancada” como expectadores, aplaudindo ou criticando, aqueles que efetivamente trabalham, que quase sempre é um grupo bem diminuto em relação ao número de membros da congregação, ou seja, pouco envolvimento da comunidade. O que se  observa é que os crentes nesta estrutura se tornam verdadeiros consumidores e cada vez mais exigentes, e mais, quando não são supridas as expectativas, corre-se o risco de perder a audiência e por conseguinte o fiel.

Desta forma, cristaliza-se a lógica de que quanto mais atividades forem realizadas, mais operosa a Igreja é, e quanto maior for a adesão dos membros, maior será o seu nível de crescimento espiritual. Aqui se desconsidera o que a Igreja primitiva colocou em lugar de destaque, a permanência na doutrina dos apóstolos (At 2.42-47), pois neste caso o crescimento e a maturidade dos frequentadores desta igreja depende  de sua participação nos eventos e não na vivência dos princípios bíblicos contidos na palavra, tais como: comunhão, ensino da palavra, oração, discipulado, compaixão e graça e outros.

Neste modelo, é comum que o pastor seja a figura central, quase sempre exaurido pelo acúmulo de inúmeras funções atribuídas a ele. Entretanto o Novo Testamento, nos mostra que após Jesus entregar seu espírito ao Pai na cruz, o véu do templo se rasgou de alto a baixo, nos dando um livre acesso a Deus (Mt 27.30-51), agora como bem realçou o apóstolo Pedro (1 Pd 2.9) somos todos sacerdotes reais, não existe mais a separação do clero e leigo, somos todos iguais no corpo, apenas com funções diferentes.

Como afirmamos acima, este é um grupo que depende do prédio (templo) para “ser igreja”, seu raio de ação limita-se às quatro paredes do templo, aos seus cultos dominicais e aos eventos que quase sempre ocorrem nos próprios templos.

Aqui está parte do retrato de uma igreja baseada em programas, é claro que com esta exposição não estamos dizendo que todas as igrejas baseadas em programas, funcionam assim e nem que se deve defenestrar os programas da Igreja. O que sugerimos é uma análise de como se dão os programas na Igreja, e seria sábio crivá-los na peneira dos princípios, pois se os mesmos apontam para Cristo e têm o propósito de glorificar a Deus, não há problema algum, caso contrário está fora de foco.

A Igreja multiplicadora por sua vez, carrega em seu DNA os princípios bíblicos que a sustentam, a saber:

1) Oração. Para esta igreja a oração é mais do que válvula de escape na hora das vicissitudes ou dificuldades circunstanciais da vida, pelo contrário este principio é seu estilo de vida como bem orienta o apóstolo Paulo (1 Ts 5.17), ele é o balizador de suas atividades.

2) Evangelização discipuladora.  Esta Igreja entende a grande comissão (Mt 28.18-20), onde Jesus deixa claro que não quer que façamos convertidos, pois afinal de contas o convencimento é papel do Espirito Santo (Jo 16.7-16), nossa missão é transformar            esses que o Pai salvou em verdadeiros discípulos do Senhor Jesus. Aqui temos três dimensões: chamar, agregar e aperfeiçoar para que este discípulo se torne um multiplicador.

3) Plantação de Igrejas.  Esta comunidade multiplicadora, não cresce apenas para dentro, ela objetiva a plantação de outras igrejas, que serão novas agências do reino de Deus, nas mais diversas regiões da cidade, do país e do mundo. Frutos deste trabalho intencional de plantação, a igreja nascente trará em seu DNA as marcas da multiplicação e ulteriormente será uma multiplicadora.

4) Formação de lideres. O Senhor Jesus dedicou boa parte do seu ministério terreno na formação de seus discípulos, por isso a igreja multiplicadora dá forte ênfase na formação de lideres, não intencionando apenas a transmissão de conhecimento livresco e teorético, o que queremos é uma formação holística, ou seja, integral, onde haja sim transmissão de conhecimento teórico, contudo tão importante quanto esse conhecimento é o acompanhamento discipular e a transmissão de vida, isto é, vida na vida, pois se a vida do discipulador não preceder seus ensinos, pouco valerá o conhecimento expresso por ele ao seu discípulo.

5) Compaixão e Graça. A exemplo da Igreja primitiva (At 2.47), só iremos contar com a simpatia do povo, quando grassar entre nós a compaixão e o amor que habitava naquela comunidade. Aqueles irmãos efetivamente se preocupavam com as necessidades alheias (At 2.45) e se esforçavam para supri-las. Por isto no DNA da Igreja multiplicadora está o amor, esta comunidade jamais fica indiferente às demandas sociais que se apresentam diariamente diante dela. Ela entende o sujeito humano como um ser integral, deste modo se preocupa não apenas em resolver a questão espiritual da pessoa, ou seja, salvar sua alma, pois o ser humano além da necessidade da salvação – que é a mais premente – tem outras, como físicas, emocionais e sociais, pois como afirma o ditado: “alma sem corpo é fantasma e corpo sem alma é zumbi”. Assim a igreja é esta agência preocupada com evangelho integral e com dignificar a pessoa humana como um todo.

Ultimando, temos diante de nós o extrato da práxis de ambas as Igrejas e podemos fazer o seguinte contraste:

Uma depende do prédio para autenticar suas ações, a outra autentica todas as suas ações a partir dos princípios contidos nas sagradas escrituras;

Uma depende de seus pastores para o exercício de boa parte das práticas eclesiásticas, a outra conta com seus pastores e lideres na formação de novos líderes para o exercício dos ministérios e a expansão do reino de Deus;

Uma depende mais dos seus próprios recursos, estratégias e eventos, a outra busca constantemente em oração o doador dos recursos, tornando isso um estilo de vida;

Uma transmite informação através de conhecimento teórico, a outra transmite vida a partir de princípios fulcrados na Palavra de Deus, formando de fato homens e mulheres que glorificam a Deus e servem com amor no ministério;

Uma contenta-se em se afixar dentro das quatro paredes de seu prédio, a outra objetiva a plantação intencional de novas igrejas, assim propagando o reino de Deus e alçando mais vidas com o evangelho;

Uma distribui cestas básicas de forma impessoal, a outra convive com a sociedade e se deixa afetar pelo sofrimento alheio, isso é compaixão e graça e como fruto deste envolvimento promove ações para minorar o sofrimento e trazer dignidade para aqueles que não têm;

Uma tem sua expansão a partir do seu prédio, ou seja, o número dos assentos constantes no templo limita o tamanho da Igreja, a outra se espalha por toda a cidade nas casas, através dos pequenos grupos multiplicadores, sendo um verdadeiro sinal histórico do reino de Deus.

Chegou a hora de resgatar os princípios bíblicos mais caros das Escrituras e nos tornarmos de fato uma Igreja Multiplicadora.

Rafael Tomazini

Coordenador Norte