Falar de grandes cidades hoje é lembrar de problemas, desventuras e calamidades. A desumanização e a violência adquirem um colorido perverso nas metrópoles modernas. A alta criminalidade, a
pobreza degradante, o tráfico de drogas, os conflitos sociais são alguns dos exemplos da violência urbana. Na Bíblia, o tema da cidade se impõe. É interessante observar que o nascimento da cidade tem origem na arrogância e independência humana. É a linhagem de Caim que dá início à cidade: “Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque” (Gn 4.17b). Caim aponta para a autossuficiência humana. Tendo perdido o Éden, o homem está diante da ruptura ecológica da terra que agora produz “Espinhos e ervas daninhas” (Gn 3.18). A solução humana é o caminho de Caim, ingrato para com Deus e autor do primeiro assassinato na Bíblia. Caim amplia a ruptura com Deus, com o próximo e com a terra. A solução para os seus problemas é uma só: “Fundar uma cidade”. Assim, a marca da cidade é a arrogância humana contra Deus. Com ela surgem a ciência, a economia e a arte (Gn 4.20-22). O ápice desse progresso perverso aparece quando Gênesis diz que o sétimo depois de Adão, pela linhagem de Caim, é Lameque, o primeiro bígamo da história, “precursor” dos filmes violentos de hoje. Os “efeitos especiais” até fazem parte do seu discurso: “Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou”. O quadro é apavorante! Pouco depois, a situação da cidade ainda vai piorar. Em Gênesis 11, os homens querem construir uma cidade para invadir o céu. No mesmo espírito de Caim, eles agora aprofundam a arrogância humana, dizendo: “Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra” (Gn 11.4). Pela gramática hebraica, a expressão “cidade, com uma torre” quer dizer “cidade que cresce para o alto”. Como os antigos achavam que o céu estava bem próximo da terra, a ideia era “invadir o céu”. Era o movimento dos “sem céu”, ou dos “invasores da morada celestial”. Os homens já “sem terra” e “sem céu”, tornam-se agora “sem comunicação”! Apesar disso, Deus vem salvar o enredo humano. De forma inesperada, Deus surgeno cenário da história. Ele resolve dar início à redenção da cidade por sua própria iniciativa. É incrível, mas Deus age a partir da mais soberbarebeldia humana. A ação redentora de Deus na história tem seu centro de ação na monarquia da vídica. A figura do rei de Israel é também sinal da rebeldia e arrogância humana contra Deus, de acordo com I Samuel 8.5-7. Ao pedir um rei, imitando os pagãos, o povo de Israel estava rejeitando a Deus. Mas, surpreendentemente, Deus não só escolhe um rei, Davi, como também elege uma cidade, Jerusalém. Os símbolos maiores da autossuficiência e independência humanas tornam-se símbolos da redenção divina. A suprema derrota transforma-se em vitória plena. O texto bíblico é inequívoco: “Darei uma tribo ao seu filho a fim de que o meu servo Davi sempre tenha diante de mim um descendente no trono em Jerusalém, a cidade onde eu quis pôr o meu nome” (I Re11.36) e: “Não jurem de forma alguma: nem pelos céus, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei (Mt 5.34,35). Como vemos, a monarquia da vídica e a cidade de Jerusalém tornam-se o palco da intervenção divina em favor do homem pecador. Todavia, a história ainda não termina aqui. O mais surpreendente aparece no Apocalipse, quando o desfecho da história humana traz de novo a figura da cidade. O texto sagrado é de “parar a respiração”: “Então vi no vos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: ‘Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou’” (Ap 21.1-5). Que coisa. A Nova Jerusalém é o Éden “urbanizado”. Parece que o antigo jardim passou por um projeto de “arquitetura celestial”. O Éden da redenção é melhor do que o da criação. A cidade que marcou o início do pecado humano é agora marca máxima da redenção. A cidade humana sobe do chão, a cidade de Deus desce dos céus. A cidade humana é efêmera, a de cidade de Deus é eterna. A cidade humana trouxe fragmentação e dor, a cidade de Deus traz união e cura. Deus faz questão de mostrar sua vitória a partir do símbolo máximo do poderio e independência humanos. É surpreendente e verdadeiro: Deus traz a redenção a partir da pior desgraça humana. Diante de tanta esperança, olhe de novo a cidade e veja como o sol está mais brilhante, o céu está mais azul, e tudo parece tão lindo.
Luiz Sayão, diretor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil