A expressão “escola de profetas” aplicada por muito tempo aos seminários e faculdades teológicas pode ter vindo do Antigo Testamento. Por exemplo, havia estudantes em Ramá, Gibeá, Gilgal e Jericó, conforme registros no 2º livro dos Reis, como se fosse uma escola que tinha como objetivo a transmissão dos valores divinos entregues à Israel por meio de sua palavra. O profeta por natureza é alguém colocado diante do povo de Deus para admoestar quanto à Sua verdade, mostrar os caminhos maus em que o povo de Deus estava e indicar os caminhos retos. O profeta, assim, estava sempre ligado à realidade, ao chão da vivência do povo. Ele também tinha como papel indicar as consequências que seriam fruto da vida e decisões que os governantes e o povo tomavam, portanto, também estavam preocupados com o futuro. Revisitando a história da educação teológica Batista no Brasil tem sido possível deduzir que a expressão “escola de profetas” ao longo foi se transformando em muitas escolas no sentido de objetivar a formação de pregadores para o púlpito, de administradores da Igreja. Uma educação formadora de obreiros, de fazedores da obra, que consigam manter o povo em movimento e transformar o final de semana em grande momento de agitação. Na década de 70 me lembro da grande tensão criada contra os seminários que deviam formar pastores e não teólogos, situação que surgiu, em menos intensidade, nos primeiros anos da virada deste século, como se fosse possível formar médicos sem ensinar Medicina. Assim, diversos seminários acabara sendo reprodutores do status quodenominacional (isto é, do que existe e de como funcionam e devem funcionar as Igrejas historicamente construídas). No passado já escrevi nesta Coluna sobre as causas destes equívocos. Penso que historicamente nossos precursores nos deixaram, entre outras, duas matrizes formadoras de nosso imaginário eclesiástico e de vida cristã. Em primeiro lugar, vem o equívoco da interpretação do imperativo da Grande Comissão (Mt 28.19-20), que ficou, por muito tempo, ligado ao IDE e, se a pessoa não pudesse ir ao campo missionário, então deveria pagar a conta com a oferta missionária. A missão da Igreja e a mensagem central das Escrituras passaram a ser a salvação do mundo perdido. Na verdade, no texto original, o imperativo está em fazer discípulos, isto é, fazer pessoas cópias da nossa vida, do nosso caráter, do nosso modo de ser que deverá retratar a vida de Jesus (I Co11.1). Certamente, a mensagem central da Bíblia é levar às pessoas a terem uma vida restaurada (pela salvação é claro) e reposicionada desde antes da queda, recuperando seu status inicial de criatura de Deus. Isto significa que a pessoa que se converte há de assumir um papel de sal e luz projetando vida transformada e transformadora no seu entorno e ambiente de vivência. Então, é muito mais do que esperar o paraíso no futuro, e enquanto isso, procurar viver sua vida eclesiástica dominicalmente. É ser influente em tempo integral no mundo em que vive. A comunhão dominical deverá ser uma celebração do que vivemos durante a semana (Rm 12.1), em vez de agitação e ocupacionismo.
De descanso, o domingo tem se tornado dia de cansaço. Outra matriz que recebemos de nossos precursores foi a cultura pragmática própria da sua cultura de origem. Ser cristão e trabalhar e não apenas esperar a volta de Jesus. O culto na pátria de origem de nossos precursores se chama de “service”, que pode ser traduzido por “serviço”, mas as palavras gregas para culto, em dicionários sérios indicam estado de adoração (temos proskyneo: veneração, latreia: adoração, e leitoygja: liturgia, culto em si), nenhuma delas indicando trabalho ou serviço. Assim, a impressão que temos é que fomos, ao longo do tempo, transformando Cristianismo em eventos, programas e atividades, valorizando o fazer e o agir. Muitos seminários, para atender essa demanda, esse ideário, acabam investindo maior parte de sua matriz curricular na prática ministerial formando obreiros, em detrimento a outras áreas da formação mais completa do aluno, tais como, do saber/refletir , do sentir, do conviver, do ser. Preferencialmente precisamos formar líderes e não apenas obreiros. Líderes que venham preparar a Igreja a enfrentar a agressiva ideologia deste mundo individualista, sem Deus e sem compaixão. Líderes de visão, que conheçam as entrelinhas da cultura deste mundo e dos cenários em formação. Veja que quando um aluno está iniciando seu curso teológico atuará efetivamente no ministério como elevada responsabilidade, depois de cerca de 08 a 10 anos e encontrará um mundo totalmente diferente pela frente, com juniores, adolescentes, jovens e casais com perfil e demanda de vida para as quais poderá não ter sido adequadamente preparado nos bancos do seminário. Não podemos pensar apenas na missão salvadora e missionária da Igreja como nossa única missão. A Igreja tem perdido a sua missão profética diante deste mundo corrompido. Temos, em geral, nos calado, deixando de cumprir o papel de sal e luz. Não podemos ficar apenas em manifestos escritos, necessitamos capacitar crentes a serem modelos de vida a influenciarem seu ambiente a serem profetas denunciadores do mal e da corrupção, da desonestidade, que não sejam meros consumidores da realidade, mas seus construtores. Os seminários serão, de fato, escolas de profetas quando considerarem estes desafios, tornando cada estudante em um líder e não apenas obreiro. Sempre me pergunto se estamos formando uma geração de futuros pastores para o passado ou se conseguimos mapear as tendências que se formam e preparam líderes que conduzam as Igrejas em segurança neste cenário cada vez mais moralmente caótico do mundo e dando respostas bíblicas contextualizadas às demandas destas novas gerações.
Lourenço  Stelio Rega