Por diversos séculos a teologia encontrou-se fechada em gabinetes, monastérios e instituições teológicas. Com a necessidade de uma teologia mais prática, especialmente na América Latina, tentou-se formular uma teologia da práxis libertadora, que alcançasse as vicissitudes do mundo latino-americano. Exemplos desta busca foram a Teologia da Libertação e a Teologia da Missão Integral, ambas essencialmente de nosso continente.

No desenvolver deste novo milênio, uma teologia que trate apenas de questões dogmáticas e teoréticas torna-se uma teologia abstrusa, uma pura ficção, inatingível lá na ponta, que é o membro da igreja, razão da existência do teologar. Teologia é o estudo e a compreensão de Deus e de sua verdade revelada ao ser humano. A Teologia tem a finalidade de perscrutar as realidades indizíveis e traduzi-las de forma mais compreensiva ao ser humano. Obviamente que o finito não pode compreender completamente o infinito; é um conhecimento parcial, revelacional, ou seja, entendemos sobre Deus o que está exarado nas Sagradas Escrituras. O teólogo de gabinete apenas, que não conhece as necessidades das igrejas e do povo, presta um desserviço à própria teologia, que deve ter como base o estudo das Escrituras Sagradas, da História da Teologia, das doutrinas, dos dogmas, mas jamais se furtando a responder as necessidades prementes de nosso tempo.

A Teologia, como saber ligada à área de humanas, deve compreender que para ser realidade e não uma ficção na vida das igrejas, ela precisa entender que a grande necessidade do ser humano se encontra hoje nos problemas citadinos. Há 35 ou 40 anos atrás, 80% da população brasileira residia nos sítios e fazendas Brasil afora. Hoje em dia, houve uma inversão: 80% da população vive nas grandes cidades. Com isso advieram alguns problemas: desemprego, carência de habitação, promiscuidade, assaltos, drogas, prostituição, álcool, delinquência juvenil, desagregação familiar, aumento da criminalidade e da violência. Estes males não escolhem raça, sexo, religião ou nacionalidade. Afetam certas minorias (étnicas, raciais e culturais) que ficam em situação de exclusão social. Algumas vezes há casos de racismo e xenofobia.

Esses problemas da vida das cidades trouxeram consigo um aumento desenfreado de certas doenças antes não tão verificadas: nervosismo, ansiedade, saturação, stress físico, mental e espiritual, esgotamento, depressão, doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, doenças respiratórias e perturbações psíquicas.  Destarte, o que encontramos nas pessoas que vêm para as nossas igrejas são seres humanos desajustados e doentes; os núcleos familiares estão cada vez mais dissociados; as igrejas passaram a enfrentar inúmeros competidores, como as diversas seitas que procuram principalmente o dinheiro de nosso povo, o qual passa a contribuir para os pregadores televisivos e não mais na igreja local; há diversos entretenimentos culturais e shoppings que também fazem com que as pessoas não venham mais para a igreja; um aumento exacerbado de uma membresia instável, ou seja, os crentes migram a todo momento e, por qualquer questão, saem de uma igreja para outra, resultando em uma membresia inconstante, instável e infiel; há o pluralismo religioso, no qual as pessoas são mais pastoreadas pelos pregadores da televisão do que pelo pastor da sua igreja, havendo assim, uma perda da identidade cristã. Se não fora só isso, há um aumento nas inúmeras e terríveis oportunidades de pecado e de esfriamento da fé cristã.

Assim, a Teologia para ser verdadeira e atuante precisa:

a) buscar a cura das pessoas feridas, preocupando-se não só com questões triviais, elucubratórias e meramente racionais; é preciso preocupar-se com a questão da cura das feridas dos de dentro da igreja e dos que se aproximam do evangelho;

b) ter uma  preocupação com a depressão, que tem sido considerada como a doença das cidades, proporcionando ações para ajudar as pessoas e os pastores e pastoras em seu estado de melancolia, falta de energia vital, irritabilidade contínua, dificuldades com alimentação, insônia e outros. Obviamente que há certas nuances da depressão que precisam de tratamento por um psicólogo cristão e/ou psiquiatra. Mas, a igreja cristã pode oferecer ajuda através do companheirismo, das relações cristãs, da amizade, da fraternidade e de atividades que elevem o ânimo da pessoa. Chega de tanta fofoca: é prioridade mais ajuda e maior suporte uns aos outros;

c) reconhecer que a solidão e a ansiedade são elementos existentes em milhões de pessoas nas grandes cidades. A Teologia precisa, portanto, ser eminentemente prática, sobretudo na graduação, ensinando seus seminaristas e/ou acadêmicos a acompanhar os membros de suas igrejas, não apenas doutrinariamente (o que é assaz importante neste momento de muitas seitas e heresias), mas também observar atentamente as evidências das “doenças da alma”, não espiritualizando tudo, mas buscando ajuda e preparo em outras áreas para uma efetiva cura desses males da hipermodernidade.

d) entender que, no momento em que vivemos, a igreja cristã precisa, além de tudo, formar ambientes relacionais. As igrejas locais devem ser um elo de relacionamentos para incluir as pessoas através da comunhão. Infelizmente muitas igrejas locais estão divididas, fragmentadas, levadas pela discórdia e dominadas pelas lutas de poder e de dinheiro. O perdão e a graça de Deus tornaram-se esquecidos no meio eclesiástico. A Teologia hoje precisa ensinar o seminarista a que, em se tornando pastor, crie uma comunidade que seja humana e que reflita o amor de Deus, através do perdão e da inclusão. É mister que as pastoras e os pastores ampliem seus conhecimentos sobre resolução de conflitos interpessoais e métodos de reconciliação, fazendo cursos de aperfeiçoamento e pós-graduações. Assim, conhecerão melhor as ovelhas que vivem neste momento histórico.

e) ensinar, manter, nutrir e equipar os pastores na sustentação de uma boa qualidade de relacionamentos no casamento e na vida familiar. O padrão cultural da competitividade e da infidelidade preconizadas pela cultura do presente colabora para a extinção de relacionamentos salutares. A verdadeira Teologia tem o dever de ajudar as pessoas a aperfeiçoar, reconstruir e enriquecer seus relacionamentos. Deve-se entender que a cura e o crescimento da pessoa estão muito amarrados à espécie dos relacionamentos. Daí a importância de pequenos grupos de estudos que sejam bíblicos, mas também onde as pessoas partilhem suas experiências e pratiquem a comunhão. O povo não suporta mais a Escola “Revística” Dominical. Querem uma escola de aprendizagem para a vida, troca de experiências, comunhão, fortalecimento e relacionamento.

Por fim, há um mito dentro das igrejas e entre alguns pastores que precisa ser quebrado de vez. Algumas pessoas têm demonizado as Faculdades de Teologia, asseverando que depois do reconhecimento do MEC não são formados mais pastores e sim, teólogos. Acham que a Teologia passou a ser ficção e não realidade. Isso é uma falácia de quem não vive a realidade teológica. O MEC deixa totalmente em aberto a questão da confessionalidade e das disciplinas a serem ensinadas. Isso depende da visão e da missão da instituição que ensina Teologia. É plenamente possível, viável e saudável se ter um curso reconhecido pelo MEC e que seja essencialmente pastoral, que esteja atento às vicissitudes da vida. Aliás, este é o maior objetivo do próprio MEC: cursos de Teologia que ajudem na formação e na melhoria social, espiritual e cidadã das pessoas. Por fim, nenhum curso de bacharel forma teólogo, pois teólogo é quem faz teologia, quem é escritor, quem tem doutorado e tenha ideias novas, aponte rumos e caminhos a serem seguidos pela igreja cristã. Quem se forma em teologia é apenas um Bacharel em Teologia. E quem vai determinar se ele será um teórico apenas ou uma pessoa voltada para a prática teológica não é o MEC, mas a própria instituição que dá a formação.

Pastor e Professor Jaziel Guerreiro Martins

Professor e Diretor da FABAPAR (Faculdades Batista do Paraná)