“Lembrança, quantas lembranças dos tempos que já lá vão! Minha vida de criança, minha bolha de sabão! Infância, que sorte cega, que ventania cruel, que enxurrada te carrega, meu barquinho de papel!” (Versos do poema “Coração”, de Guilherme de Almeida).
Ah! Os bons tempos de criança. Tempos que não voltam, pois a vida, teimosa, deixa tudo no passado. Pretérito que traz à memória a bolha de sabão, a enxurrada a levar os barquinhos de papel, a roupa molhada pelos últimos pingos de chuva e a insistência em fazer `apenas mais um barquinho. O último a levar os sonhos de um futuro feliz. Harmonia perfeita entre a infância que sorri e o presente que não questiona, sem medo. O tempo passa e hoje não temos mais bolhas de sabão. As enxurradas estão contaminadas com os detritos que entulham as ruas. As crianças não sabem mais construir barquinhos de papel. Caso os construam, não sabem como utilizá-los nas brincadeiras inocentes do mundo infantil. Com seus tablets, smartphones e todos os recursos oferecidos pela louca vida moderna, crianças aprendem a guerrear uma guerra virtual onde não há vencedores, nem vencidos. Destroem e são destruídas por inimigos invisíveis. Uma luta contra monstros fictícios; a mover apenas os polegares, enquanto a mente se atrofia e armazena cenas de horrores, que jamais oferecerão flores ao futuro. Sentadas, imóveis, com os olhos fitos na telinha, a morder a língua, a criança de hoje não sabe o que é ser criança e viver como tal. A sociedade de horror e violência tem roubado das crianças toda a pureza e sonhos do mundo infantil. Imobilizadas por aparelhos eletrônicos, apegadas aos celulares, sem orientação tocá-Lo. O Mestre ouviu o lamento das crianças que cantavam e tocavam flautas nas praças. Amou-as com especial carinho. Recomendou aos pais e a Igreja ver nas crianças o Reino dos Céus. Usou o lanche de um menino para abençoar milhares de pessoas. Desafiou seus seguidores a ser tornarem crianças, caso desejassem entrar em Seu reino. Pais e Igreja precisam ensinar as crianças a soprar bolhas de sabão e a construir barquinhos de papel. Isto é, descer a estatura de crianças para ser grande no Reino de Deus. Viver vida de criança, sem maldade e sofismas. Deixar que sejam crianças.