Educação Cristã é possibilitar orientação que conduz os cristãos à maturi- dade da fé; é possibilitar o desabrochar das potencialidades, dos dons, talentos que cada um de nós carrega dentro de si. Desta forma, Educação cristã é, ao mesmo tempo, a articulação de objetivos, conteúdos, meios, processos e espaços que, quando interligados em prol do desenvolvimento cristão de cada indivíduo, vai cumprindo sua missão de nos tornar a imagem de Cristo (Ef 4.10- 15). Vendo dessa perspectiva somos conduzidos a compreender que todas as áreas, ministérios ou departamentos da Igreja fazem educação. De fato, o fa- zem, ainda que intuitivamente. Porém, há uma vocação específica dada a alguns, denominados na Bíblia de mestres, e que aqui ouso chamá-los educadores: educadores cristãos!

O educador, a educadora se veem tensionados entre “o que é” e “o que faz”. Isso é fruto, entre outras coisas, de uma sociedade individualista e utilitarista. Logo, parece que a identidade “educador” vai sendo definida apenas pela função e não pelas disposições íntimas que outrora moveram homens e mulheres na formação educacional. Nesse caso sugiro um exercício do pensar crítico que nos auxilie a rever e reler a identidade do “ser” educador. Eis algumas trilhas:

– Necessárias mudanças pessoais internas: o educador cristão, no meu entendimento, tem em seu interior a valorização das mudanças pessoais que fazem grande diferença. Lembro-me de Jesus em seu ato educativo quando disse aos discípulos: “O Espírito de Deus é quem dá a vida, mas o ser humano não pode fazer isso. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida” (Jo 6.63). Palavra que provoca muitos movimentos a começar de dentro. Um pouco mais adiante no texto, o Mestre Jesus Cristo reafirma esse ensina- mento quando fala aos discípulos e a outros que começavam a crer nele: “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.31-32). O permanecer pode ser entendido aqui como aprofundamento de vínculos com a Palavra que me leva, interiormente, de uma desordem para ordem; para o aprofundamento de meus vínculos com Deus, reorganizando meu próprio ser. O “conhecer”, na compreensão clássica do texto sagrado não é uma atitude passiva ou linear do transmitir encher, muito pelo contrário. Conhecer é estar “intimamente ligado a”. Dito de outro jeito, a Verdade (que é o próprio Cristo) é desvelada no processo de restauração pessoal. O ato do “conhecer” é expresso numa profunda e maravilhosa relação entre o meu ser íntimo com Deus que vai me libertando cotidianamente das contradições internas e manifestas no meu “eu” egoísta. E, simultaneamente, “conhecer” me leva, me aproxima ao meu próximo, aprendendo a me relacionar também com esse. Isso desperta o educador, fazendo-o cumprir o dom existente dentro de si. O que me leva a próxima trilha…

– O princípio relacional da educação. A comissão deixada pelo Mestre Jesus: “(…) façam discípulos…ensinando-os…” (Mt 28. 19,20) indica forte- mente o aspecto relacional entre Deus e a humanidade e entre nós mesmos. É aqui que o processo educacional como missão da Igreja ganha uma amplitude de grandes proporções, na qual o educador desenvolve e cumpre um aspecto relacional com o próximo. O que me leva a entender que educação cristã vai muito além de pragmatismos, porém, é processo dinâmico promotor do desenvolvimento da espiritualidade que me conduz mais e mais a Deus e ao meu próximo. Educador é vocação, porque é movido por visão e esperança. E, imerso numa realidade complexa, cria, inova, trabalha em equipe e busca formação contínua, a fim de melhor cumprir o propósito de colaborar na edificação do Corpo de Cristo do qual todos participam: da criança ao idoso (II Tm 1.5; 2.1,2).

Educadores cristãos além dos muros da Igreja. A Igreja cumpre um papel fundamental e estrutural na educação espiritual da pessoa toda e para toda pessoa. Educadores precisam estar conscientes do seu papel educativo que auxilia, por meio de ações planejadas, no desenvolvimento de valores que contribuem na formação do caráter, integralidade e vida com Deus. Assim, o educador cumpre seu papel de coparticipante por meio do ensino, recursos e orientações com base nos princípios bíblicos. Porém, creio, a partir de minha própria experiência, que a missão educacional por meio dos educadores cristãos abrange outros espaços relacionados ao ambiente eclesiástico como associações locais, convenções estaduais, projetos interdisciplinares, dentre outros. Esses espaços colaboram com a Igreja local e precisam também compreender sua missão formadora e colaborada na missão educacional. O olhar de um educador cristão consciente de seu tempo histórico e habilitado em processos educacionais pode ser um grande diferencial nesses outros espaços.

A quem educa concluo essas singelas linhas dizendo: “Desperte o educador, a educadora vocacionado por Deus que está aí dentro de você!” Resgate o “ser” educador a fim de que, como coparticipantes de tão excelente missão, partici- pemos do cumprimento das propostas do Reino de Deus, cujas sementes já estão entre nós.

Dica de leitura: “Educação Cristã na igreja: perspectivas em destaque, de Lea Rocha L. e Marcondes. Curitiba: Editora Emanuel, 2018.

Rosane Andrade Torquato | Diretora de Educação Cristã da CBP

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